A aridez e os sonhos

 

A aridez e os sonhos.

Adibê

Olá, Visitantes.

Desde sempre, me vejo em conflito entre a praticidade e o desejo. Toda criança dita normal é sentimento puro, visceral, exploradora de todas as possibilidades que se apresentam, ávida por experimentar, aprender e conhecer a vida. Enquanto crianças, somos geralmente bem tolerados em nossas doideiras, nunca deixando de sermos castigados devido aos exageros. À medida que envelhecemos, o pragmatismo urge.

Os adultos precisam ‘domesticar’ as efusividades infantis e todos o fazem, cada qual com suas escalas de valores e prioridades. A grande maioria nunca deixa de fazer isso sem amor e responsabilidade, dando o melhor de si, visando uma boa educação, apesar da missão ser um labirinto, uma montanha russa, uma escarpa, um purgatório.

Assim sempre foi minha família, especialmente na figura de minha mãe, com todo seu poderio em assumir vários mundos sob suas asas ou sobre suas costas, disciplinando nossas mentes, afagando nossos corações, colocando rédeas nos maus impulsos e iluminando e nos direcionando a bons caminhos. Sua influência na minha persona fez de mim um espelho seu.

Minha mente sempre foi hiperativa, acima de qualquer cálculo. Essencialmente, me foi uma bênção, pois facilitou imensamente meus aprendizados que me desenvolveram e protegeram em N situações desde os verdes anos. O lado ruim foi aos meus contatos cotidianos. Essa hiperatividade mental somada à uma alta ansiedade me atrapalharam demais na minha comunicação verbal, visto que, na inocência infante, eu tentava externar em palavras na mesma rapidez que meu cérebro processava as informações. Assim, constantemente, eu atropelava as palavras, gaguejava, perdia o fôlego, até me desesperava quando via o rosto interrogativo das pessoas. Era lógico: como entenderiam o que eu não conseguia concatenar em palavras?

Sendo o caçula e, como qualquer criança, ávido por atenção, tantas vezes, também eu me frustrei pelos desvios de atenção que os mais velhos faziam comigo. Para uma criança falando como eu falava, precisava-se de muita paciência. Demorei muito para deixar de me importar com essa ‘desatenção’. Em vários casos atualmente, tal frustração ainda aflora, mas, quase sempre, desprezo-a e sigo em frente.

Vivi toda minha infância e adolescência nessa situação caótica dentro de mim, fato que gerou uma arraigada insegurança que perdura até hoje. Consciência é um fardo. Assim que passei a tentar de fato controlar minha alta ansiedade, já era muito tarde porque a força da roda viva “fez comigo o mal que a força sempre faz”. Desde então, minha vida interior é um remoinho, uma instabilidade emocional, uma quimera insana que supera qualquer grilhão que tento lhe imputar. Há décadas que aceitei o que minha mãe incutiu em mim desde os primórdios ao perceber que eu não tinha controle algum sobre essa fera.

Ela sempre foi minha fortaleza em tudo e me doutrinou a priorizar minha mentalidade porque só esta é capaz de fazer frente às nossas dificuldades e às excrescências da vida. Entre tantas, ela dizia: “Defenda-se sempre, mas a melhor defesa é o desprezo”. Ou então: “Nunca se importe com o que os outros pensam ou falam de você porque nenhuma opinião além da sua deve prevalecer”. Essencialmente, as palavras de Buda: “Sede senhor de vossa mente”.

Mesmo com tantos mundos sob sua responsabilidade, minha mãe nunca deixou de demonstrar seu amor através de ensinamentos pontuais ou universais. Seus maiores carinhos estavam em sua constante preocupação com nosso bem estar e na sua luta para que nada de necessário nos faltasse. Em vários casos, fez “das tripas, coração” para garantir tal bem estar aos filhos.

Entre erros e acertos, muito mais o segundo. Com tantos apuros e dificuldades, minha mãe precisava demonstrar frieza, praticidade, sentimentos controlados e nenhum desvio de foco o tempo inteiro. À sua maneira, ela foi totalmente carinhosa e amorosa com todo mundo, sem nunca ter sido “pegajosa”, abraçando e beijando o tempo todo. Muitos vêem isso com negatividade por acreditarem que uma mãe que não abraça e beija com freqüência pode causar traumas. Não é assim. Traumas advêm de fraquezas nas estruturas, sendo obrigação de cada um localizar as próprias e as fortalecer ou as blindar, evitando a todo custo que sejam fustigadas.

Após tantas idas e lidas, vindas bem vindas, voltas e revoltas, eis que me vejo escrevendo estas palavras querendo me autoavaliar e analisar, pesar, concluir tudo o que passei. E chego à óbvia conclusão: não há conclusão. Sequer vale a pena, como resumi nesta minha versão de “The long and widing road”, dos Beatles:

 

A LONGA ESTRADA ALÉM, EU JAMAIS VENCEREI.

PARECE SEM LIMITES. MAIS DO QUE PENSEI.

SÓ POSSO CAMINHAR. ATÉ ONDE... NÃO SEI.

 

A LONGA ESTRADA VAI ATÉ ONDE NÃO SE VÊ.

TUDO O QUE CONSTRUÍ VAI DESAPARECER.

ÀS VEZES, ME PERGUNTO SE HÁ RAZÃO EM VIVER.

 

TANTAS VEZES, EU TENTEI COMPREENDER A VIDA.

TANTAS VEZES, EU CHOREI DE FORMA INCONTIDA

 

POIS O QUE POSSO VER É QUE A LONGA ESTRADA ALÉM

NOS LEVA PARA O NADA. NÃO IMPORTA QUEM.

E, ENQUANTO AINDA CAMINHO, QUERO AMAR ALGUÉM.


Tudo envelhece, perde seu viço, sua exuberância. Gradativa e inexoravelmente, nos tornamos um passado vivo e, quando partirmos, restarão só lembranças que o tempo se encarregará de esboroar. Então, nada importa além de viver de fato. Vida é constância, é momento. Este. Aprendi com o que passou e a não me frustrar de véspera. Compartilhar vivifica. Ambição é pura vaidade. Acumulo só o que cabe no meu coração. Somos aquilo que aceitamos ser e a vida só vale a pena com a alma bem serena, sem desilusão.

E como evitar desilusão? Impossível, porque dependemos de outras pessoas para completarmos nossos anseios e evoluirmos. Já que somos todos instáveis e temos metas particulares, fatalmente elas não irão concatenar com as alheias. São os sonhos que nos fazem sorrir dentro da aridez que a realidade nos mostra e realizá-los é o ápice da satisfação. Sonhar é conquistar o horizonte. Viver, uma real emoção. Faça, da sua mente, uma ponte interligando sua alma ao seu coração. Eu tento.

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